visão
A velocidade da mente e o tempo das coisas.
Como a aceleração do mundo digital altera nossa percepção do cotidiano e gera ansiedade.
texto pema ledre

A tecnologia acelera a gente. Pode parecer nenhuma novidade, mas experimentar isso na pele é diferente.
Você passa o dia inteiro na frente do computador, do celular, ou de uma tela qualquer — rede social, filme ou trabalho. Quando se levanta para fazer as tarefas simples do dia, a calma some.
A paciência e a destreza de fazer algo no seu próprio tempo, aproveitando o momento, simplesmente desaparecem.
O mundo mental tem outra velocidade. Quando a gente pensa, instantaneamente já estamos em outro lugar. Se você pensar em uma praia agora, você se "move" para lá no mesmo instante porque no nível sutil da mente, tudo é muito rápido, instantâneo.
As telas oferecem essa mesma dinâmica. Em um filme, passam-se dez anos em duas horas. A mente experimenta essa aceleração e assimila aquilo como uma velocidade incrível.
O problema é que, na vida concreta, dez anos levam dez anos. Isso gera uma ansiedade enorme pelo futuro. A mente quer que a realidade física acompanhe o ritmo do pensamento.
No trabalho em frente à tela acontece o mesmo. Executamos várias funções em sequência e a mente acompanha o ritmo. Ficamos horas nessa rotação e depois, na hora de tomar banho, a gente passa o sabonete no corpo com a mesma pressa porque gesto físico parece lento demais, o pensamento já está lá na frente.
Não se trata de negar a evolução ou a utilidade da tecnologia mas sim de contemplar a questão: como realizar as atividades do dia a dia sem deixar que a mente se perca em aflições?
Talvez a palavra seja "atravessar", literalmente.
Atravessar no sentido de continuar fazendo o que precisa ser feito, mas sem deixar que o corpo se perca nem reflita a ansiedade da velocidade mental que atividade no momento pede. Pelo menos conseguir olhar melhor para essa condição. Não necessariamente para usá-la a nosso favor, mas para não deixar que ela seja usada contra nós.
E como atravessa?
Essa dinâmica representa a natureza livre da mente.
A mente não tem tempo nem espaço,
ela pode acelerar ou desacelerar porque ela está além disso.
A base da mente é completamente livre e pode fazer surgir qualquer coisa.
As emoções e as aflições que surgem vêm dessa mesma base, do mesmo material, da mesma substância. As atividades estressantes, sempre estiveram e vão estar por aí, independente da época ou da tecnologia digital.
Não é um papo de simplesmente aceitar a dor. É olhar para a aflição que surge desse encontro de atividades e perceber que ela também traz a pureza da liberdade da mente.
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